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26 maio, 2010

Hitchcock e A Carta




Na folha lisa
Meus olhos miram
Torpes borrões de tinta
Mal acompanho o ritmo acelerado dos traços
Senti-me pequeno
O corpo inerte, gelado
Antes fosse cego

Minh’alma tornou-se cambaleante
Reduziram-me a vida
Mero instante
A dor se entorna, desabo
Gosto de fel
Zumbido na mente

Quando o mal retorna
A morte é a porta
A saída mais fácil
A escolha que faço
O salto
A fuga

Antes que finde
Findo eu.



Mariah Cândida

{lembra?
nostalgia na uerj: saudades de vc mesmo quando vc está presente}

23 maio, 2010

Boris Vian

Morrerei de um câncer na coluna vertebral
Será numa noite horrível
Clara, quente, perfumada, sensual
Morrerei de um apodrecimento
De certas células pouco conhecidas
Morrerei de uma perna arrancada
Por um rato gigante surgido de um buraco gigante
Morrerei de cem cortes
O céu terá desabado sobre mim
Estilhaçando-se como um vidro espesso
Morrerei de uma explosão de voz
Perfurando minhas orelhas
Morrerei de feridas silenciosas
Infligidas às duas da madrugada
Por assassinos indecisos e calvos
Morrerei sem perceber
Que morro, morrerei
Sepultado sob as ruínas secas
De mil metros de algodão tombado
Morrerei afogado em óleo de cárter
Espezinhado por imbecis indiferentes
E, logo a seguir, por imbecis diferentes
Morrerei nu, ou vestido com tecido vermelho
Ou costurado num saco com lâminas de barbear
Morrerei, quem sabe, sem me importar
Com o esmalte nos dedos do pé
E com as mãos cheias de lágrimas
E com as mãos cheias de lágrimas
Morrerei quando descolarem
Minhas pálpebras sob um sol raivoso
Quando me disserem lentamente
Maldades ao ouvido
Morrerei de ver torturarem crianças
E homens pasmos e pálidos
Morrerei roído vivo
Por vermes, morrerei com as
Mãos amarradas sob uma cascata
Morrerei queimado num incêndio triste
Morrerei um pouco, muito,
Sem paixão, mas com interesse
E quando tudo tiver acabado
Morrerei.

04 março, 2010

espelho

Sou prata e exato. Eu não prejulgo.
O que vejo engulo de imediato
Tal qual é, sem me embaçar de amor ou desgosto.
Não sou cruel, tão somente veraz —
O olho de um deusinho, de quatro cantos.
O tempo todo reflito sobre a parede em frente.
É rosa, com manchas. Fitei-a tanto
Que a sinto parte de meu coração. Mas vacila.
Faces e escuridão insistem em nos separar.

Agora sou um lago. Uma mulher se inclina para mim,
Buscando em domínios meus o que realmente é.
Mas logo se volta para aqueles farsantes, o lustre e a lua.
Vejo suas costas e as reflito fielmente.
Ela me paga em choro e agitação de mãos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã sua face reveza com a escuridão.
Em mim afogou uma menina, e em mim uma velha
Salta sobre ela dia após dia como um peixe horrendo.


Sylvia Plath

31 outubro, 2009

O que eu sinto, eu não ajo.
O que ajo, não penso.
O que penso, não sinto.
Do que sei, sou ignorante.
Do que sinto, não ignoro.
Não me entendo e ajo como se entendesse.


c. lispector

19 setembro, 2009

a cartomante II


Qual é o seu maior desejo? Não responda. Seu maior desejo é ser você.


"Se só me faltassem os outros, vá;
um homem consola-se mais ou menos
das pessoas que perde;
mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo".
Dom Casmurro / Machado de Assis

11 setembro, 2009

I miss me tomorrow.


"El que no tiene memoria, se hace una de papel"

"Não ia derramar uma lágrima, não ia esbanjar o resto de seus anos se cozinhando em fogo lento no caldo de larvas da memória, não ia sepultar-se em vida a costurar sua mortalha dentro de quatro paredes..."


O amor nos tempos do cólera - Gabriel García Marques (lê o âmago humano)

11 agosto, 2009


El mar, el mar y tú, plural espejo
"Bajo tu clara sombra" - Octavio Paz

El mar, el mar y tú, plural espejo,
el mar de torso perezoso y lento
nadando por el mar, del mar sediento:
el mar que muere y nace en un reflejo.


El mar y tú, su mar, el mar espejo:
roca que escala el mar con paso lento,
pilar de sal que abate el mar sediento,
sed y vaivén y apenas un reflejo.


De la suma de instantes en que creces,
del círculo de imágenes del año,
retengo un mes de espumas y de peces,


y bajo cielos líquidos de estaño
tu cuerpo que en la luz abre bahías
al oscuro oleaje de los días.

19 julho, 2009




How happy is the blameless vestal´s lot!
The world forgetting, by the world forgot.

Eternal sunshine of the spotless mind!

Each pray'r accepted, and each wish resign'd ...


Alexander Pope (1717, trecho de Eloisa to Abelard)

30 maio, 2009

...

Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.

E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

Sinto os passos de Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!

E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!


Florbela Espanca

07 maio, 2009

"Há noites que eu não posso dormir de remorso por tudo o que eu deixei de cometer."
Mário Quintana.

02 abril, 2009

where is my mind...


febre e insônia todas as noites, dores no corpo e uma garganta fechada. todos os médicos de plantão dizem que é gripe. mas, só um deles, de fato, cuida de mim mesmo que eu não tenha o que eu tenho (ou tenha o que não tenho). não durmo e não tenho aquele desespero de querer dormir... então leio, vejo filmes, ouço música e sou feliz na madrugada...
o único problema (ou alívio) é que o dia fica muito curto.



- Vou dormir agora - ela disse. - Pode me deixar no chalé Penny.
- Oh, não - disse ele, sentando-se na roda. - Nós vamos dar umas voltas perto do mar, até que
você fique tão sonolenta que já não possa aguentar mais. Você sabe que não se consegue dormir
até se achar alguma coisa para se sentir grato, nunca se consegue dormir quando se está com raiva.
Uma espiã na casa do amor - Anaïs Nin (sim, eu leio muito devagar)




With your feet in the air and your head on the ground
Try this trick and spin it, yeah
Your head will collapse
And there´s nothing in it
And you´ll ask yourself
Where is my mind
Where is my mind
Where is my mind
Where is my mind

Where is my mind - Pixies


img: filme clube da luta.
dica: placebo+pixies+mind

18 janeiro, 2009


"Sempre que se sentisse perdida nos infinitos desertos da insônia, ela iria dedicar-se de novo ao filamento labiríntico de sua vida, desde o princípio, para ver se poderia descobrir em que momento os caminhos se haviam tornado confusos".


Anaïs Nin - Uma espiã na casa do amor




30 agosto, 2003

pensações...

Hoje andei pensando numa frase da Clarisse Lispector muuuito f*da que li no livro Água Viva! É legal pras pessoas que acham que a vida tem um jeito único e correto de se viver. Aí vai:

"Não quero ter a terrível limitação de viver apenas aquilo que é passível de fazer sentido. Eu não, quero uma realidade inventada."


pensem.