ainda não sei bem por que motivo tenho um blog e nem por que falo da minha vida nele, mas já que eu faço isso, acho que ela merece esse espaço.
Foram 12 anos... e eu tinha 12 quando fomos em uma feira de filhotes. eu queria um cocker spaniel, mas minha mãe, que tinha se abaixado para pegar o boxer de olho pirata, se apaixonou pela irmã dele, aquela oferecida que pulou nos seus braços e a lambeu sem medo de ser feliz. fui convencida (como se eu fosse a mãe e ela fosse a criança esperneando "ah, mas eu quero essa") a levar aquela boxer branca, meio elétrica, meio 'bored' (ela conseguia isso). enquanto eu tentava mostrar minha insatisfação, birra que ninguém faz melhor do que eu, ela me conquistava... nem precisou de muito pra eu ficar alucinada por aquele serzinho. a partir daí começaram as mil histórias que eu sempre contei por aí, cheia de orgulho.
ela veio para 'curar' uma depressão. e eu nunca vou conseguir descrever a importância da sua passagem no meu caminho. sério, não existe vocabulário. só sei que eu temia este dia a cada dia que passava, a cada passinho mais torto, a cada respiração pesada, a cada olhar um pouco mais sofrido. nunca pensei que um cachorro fizesse tanta diferença em uma vida. mas, como ela latiu umas 4 vezes em todos esses anos, a gente acha que a Bina era qualquer outra coisa, menos um cão.
ela seguia a gente pela casa, onde quer que fossemos. e se as pessoas se espalhassem, ela ficava no meio do caminho. de manhã, quando minha mãe saía cedo, ela arranhava a minha porta até eu acordar e abrir, só pra dormir no meu tapete. e agora dói muito mais olhar pra trás e não ter que brigar por ela estar na minha cola, atrás da minha cadeira, no pé da cama, sempre na iminência de um acidente. e tudo o que eu queria agora era que ela estivesse mais perto ainda, em cima da minha cabeça, onde mais ela quisesse.
A Bina teve câncer, mas viveu um pouco além do que se costuma prever para boxers, essa raça tão linda e tão cheia de problemas. sofreu pouco tempo com o liposarcoma, mas um bocado com a displasia. era uma lady, nunca reclamou de nada. mas a gente sabe.
Puta merda, como dói. dói do tipo 'eu não sei quem eu sou sem ela'. sempre me vi como 'a Carol que tem a Bina', e agora, faço o quê? e, apesar do câncer ter sido diagnosticado dias antes de ela ir, há meses eu comecei a ter esse medo e fiquei bem próxima, fiz quase tudo o que ela queria e brigava muito pra mimá-la bastante, embora ainda tivesse gente querendo que ela fosse adestrada àquela altura... mas não adianta. Por mais que eu tenha feito por ela, ainda sobram sentimentos de culpa, de eu deveria ter feito isso, ou não ter feito aquilo.
A Bina amava passear. de carro, então, ficava em êxtase, desconhecidos não podiam dar mole com a porta aberta. e era ouvir "passear" ou "rua", ver a bolsa que eu sempre levava ou a coleira, que pulava ensandecida, mesmo mal se aguentando nas perninhas. para ela não deve ter feito diferença, mas pra que eu tivesse 'some closure', e isso vai parecer meio mórbido, levei as cinzas dela pra floresta da tijuca, para ver o Rio de Janeiro de alguns dos meus pontos preferidos.
a dor segue e a vontade é de jogar a toalha e pedir pra sair do jogo. que palhaçada é essa de você gostar tanto das pessoas e quando você ainda tem tantos planos pra elas, elas morrem. e se for como foi com a minha avó, nunca passa. é uma das coisas que eu não esqueço e que até hoje, literalmente, me engana nos sonhos. revivo a dor em várias manhãs, depois de sonhar com ela viva, acordar e ver que era tudo mentira.
sim, se entregar é melhor, ficam lembranças tão boas... mas, ao mesmo tempo, contabilizo algumas pessoas que eu amo nessa vida e se eu me entregar ao medo de perdê-las, não faço mais nada por mim mesma. cacete de mundo.
BINA, obrigada.